quinta-feira, 7 de junho de 2012

biografia XXXV – júlia

como atravesso a aridez
dos dias insulares das
horas
pantanosas

solo dos meus passos
insensatos

e construo meus poemas
imprevistos

como acolhe meus
rios nas margens me
conforta num corpo
imenso

como me salva
diariamente da morte
insone que me arrasta

nas encostas do
desespero

sonhos das minhas brumas
insalubres

Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 19 de abril de 2012

biografia XXXIV – cidades

I.

na curva dos dias o rio
estendeu suas margens forjou
devagar seu leito
de areia e sombras

moveu encostas carregou
pedras contornou
a montanha sem jamais
afrontá la

solos arruinados enseadas
aterradas sobre
as pontes a brutalidade
dos homens

e o rio das minhas lembranças
engoliu a cidade
e suas imundícies
num dia de chuva



II.


sob as janelas
sinuosas rios e córregos penetram
na noite

casas pequenas espiam
as margens abrigos
mornos nas perdidas
distâncias

homens e mulheres aninham se
na sombra perene
da montanha
mineral

que se estende inteira
no horizonte


III.


rasgadas na poeira ruas
e avenidas sufocam
rios e córregos

casas trepam nos morros
vales se entopem de
lixo esquinas
abandonadas

a montanha exportada
em pedaços um horizonte
inteiro desfigurado


furiosa a chuva continua
engolindo a cidade


Adair Carvalhais Júnior

sábado, 20 de novembro de 2010

biografia XI - raízes




eu trouxe até aqui
o rio que rompia as margens
lamacentas

os restos de cada lua

e das noites
envelhecidas

os corpos escuros
de meus avós a poeira
                           
presa aos meus hesitantes
passos
                                    
trouxe até aqui
os olhos azuis de meu pai
a angústia de minha mãe

meu corpo envelhecido

hoje eu trouxe a finitude
do meu olhar

a montanha desfigurada
o aconchego dos filhos

sob as cobertas

e a poesia vã
das manhãs envelhecidas



Adair Carvalhais Júnior

domingo, 7 de novembro de 2010

biografia XXII - filhos


o velho fusca levava
estradas e estradas afora o odor
branco das flores
do limoeiro


ia e vinha a poeira
dos dias cansados


o rio velho levava
encostas e encostas afora
as folhas leves
das castanheiras


a sombra verde
das castanheiras


as árvores velhas
levavam os sonhos
ventos e ventos
afora

as estradas poeirentas
onde meus irmãos viajavam


no quintal da casa
a velha montanha
contava histórias
do mundo inteiro


Adair Carvalhais Júnior

terça-feira, 12 de outubro de 2010

biografia XX – órfãos

meu pai ensinou as profundidades
dos rios suas altas
margens

minha mãe o nome da
solidão seu cheiro
entranhado no corpo

a lonjura das estradas
poeirentas um mundo
de ausências

as âncoras e os modos
de se entrelaçarem as
mãos ainda

procuro



Poema: Adair Carvalhais Júnior
Foto: Lúcia Araújo

quinta-feira, 24 de junho de 2010

biografia V - comum

o mundo no poema se sonha completo

Ferreira Gullar



cercam me esquinas
esquivas corpos
abatidos dobrando se sobre si
mesmos penumbra cerrada nas
janelas passos curtos sobre as
calçadas

raros horizontes arruínam se nos
olhos sitiados poemas dissipam
se silêncios derramam uma
aurora pálida arranca se da vasta
indigência

há muito me
exilei



Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 30 de abril de 2010

biografia XXXIII - maduro

oferecer às mãos dos
meninos todos
fios grisalhos harmonizar

os passos ao
pendor da
terra

acolher o pai que tropeça
atrás e jamais se
esquece as sombras

que exalam os
frutos límpidos das
fontes

cada passo uma
viagem completa um
perene

amanhecer



Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 26 de abril de 2010

biografia XXI – angústia

quando nasci pássaros
atordoados afogavam se no rio
doce a noite
fechava se sobre
todos nenhum

anjo se importou

meus livros desesperam se
na escuridão as 3
árvores que
plantei naufragam
no calor

enlouquecido


pedro e alice já não
dormem em casa em lugar
algum encontro o que
deixei na beira do
rio nem nos meus

cabelos brancos as flores
do limoeiro a
correria das crianças no
quintal da minha

infância

quarta-feira, 3 de março de 2010

biografia XXXII - paradeiro

meus semelhantes sucumbem
nas tardes suas
tristezas
cotidianas amontoam se

ao meu lado nas
mãos a pele manchada o
frio dos dias

irremediáveis

nos olhos o gosto
das noites mal
dormidas seus
vastas desertos despencam

sobre mim vergam
minhas
pernas

exaustas


a vida se desfazendo


Adair Carvalhais Júnior

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

biografia XXXIX - velho

entranhar os pés na
terra irradiar
raízes saber se

árvore fundo
e lentamente

feito rochas
sábias permitir se
alicerces erguer

brandas
passagens

como águas
remotas brotar nas
rugas do solo insinuar se

orvalho nas casas nas
sombras nos

descampados


Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

biografia XXVIII- filhos




aos meus pés alice
devora os
dias amontoados em
livros

seu sorriso me faz
persistir
               
                     
de longe os pequenos
olhos de pedro espreitam
os
dias
               
seu abraço me
refaz o mundo
                     

a vida emana e se

                     
enraiza
                





Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

biografia XXXVIII - lar

o mar se movimenta
todo dentro
de mim toma meu
corpo alaga se nos
meus
vãos

acorda as velhas
amoreiras os cabelos
brancos de meus
avós as vozes
dos meninos nos
quintais

o rio dorme inteiro
nas minhas
planícies escorrega entre
meus dedos inunda

calmamente minhas
solidões

encontra o cheiro
morno das manhãs
de sol as pedras
esquecidas o
barro nos pés
descalços

mas não deságua

no mar


Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

biografia XXXI - esperança

já morreram as duas
árvores que
plantei perderam se

no mundo os pequenos
poemas que
escrevi esvaziaram

se de mistérios as noites
de desamparo

o corpo magoa se com
o tempo nenhuma
chuva incomoda mais dói

olhar

prá frente



Adair Carvalhais Júnior

domingo, 17 de janeiro de 2010

biografia XXXIV - minas

caminhava entre
pedras recobria me de
montanhas branqueavam

meus cabelos enrugava
me a face profundos
vales

ansiava sertões dentro
de mim vertiam
cachoeiras inflamavam

meus olhos cresciam
vastas
angústias

a terra obra dentro
de
mim


Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

biografia XXXV - poesia

refazer toda a
humanidade em cada
verso inspirar infinitos
silêncios cada

sulco do mundo cobrir
de linguagem em
tudo tomar
parte

inaugurar a
terra dia
a dia respirar o
inatingível

a palavra
obra em
mim



Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

biografia IV - impassível

um cheiro vermelho
nos pés e goiabas
apodrecendo no
quintal ainda

doce

o rio
atravessando a
janela e muitas
crianças

na rua

a poeira da
estrada nos
olhos de meu
pai minha

pequena solidão

o calor das paredes
remotas desarranjando
meus cabelos
brancos minha

frívola vaidade

a cidade enorme onde
procuro as
castanheiras
debruçadas nos

muros

longínquos





Adair Carvalhais Júnior

domingo, 20 de dezembro de 2009

biografia XXXVII- infância

imersa nos
dias distante feito
oceano arraigada na

areia submersa
nela
mesma

alheia

transbordando dos olhos

forasteira


Adair Carvalhais Júnior

biografia XXXVI- bh

a cidade crescia rápida
demais ao meu
redor onde agora minha
casa meu

cobertor

a cidade subia e
descia toda
hora uma ladeira onde
se escondia o

rio da

minha infância

e perseguia meu corpo
interiorano seus seios
adolescentes seus
quadris suas

praças sempre
vazias onde

murmurava a

poesia




Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

biografia III - rua

biografia III - rua



pique esconde

futebol

mãe da rua



carrinho de rolimã

bicicleta

primeiros beijos


a vida toda fora
de casa


Adair Carvalhais Júnior

sábado, 5 de dezembro de 2009

biografia II - família

o velho fusca arrastou estrada
a fora minha
mãe meus
irmãos no

caminhão panelas
mamadeiras o
cachorro nosso
mundo inteiro

a casa confundiu se na
poeira

nunca mais senti o cheiro
branco do
limoeiro do
quintal