sábado, 20 de novembro de 2010

biografia XI - raízes




eu trouxe até aqui
o rio que rompia as margens
lamacentas

os restos de cada lua

e das noites
envelhecidas

os corpos escuros
de meus avós a poeira
                           
presa aos meus hesitantes
passos
                                    
trouxe até aqui
os olhos azuis de meu pai
a angústia de minha mãe

meu corpo envelhecido

hoje eu trouxe a finitude
do meu olhar

a montanha desfigurada
o aconchego dos filhos

sob as cobertas

e a poesia vã
das manhãs envelhecidas



Adair Carvalhais Júnior

domingo, 7 de novembro de 2010

biografia XXII - filhos


o velho fusca levava
estradas e estradas afora o odor
branco das flores
do limoeiro


ia e vinha a poeira
dos dias cansados


o rio velho levava
encostas e encostas afora
as folhas leves
das castanheiras


a sombra verde
das castanheiras


as árvores velhas
levavam os sonhos
ventos e ventos
afora

as estradas poeirentas
onde meus irmãos viajavam


no quintal da casa
a velha montanha
contava histórias
do mundo inteiro


Adair Carvalhais Júnior

terça-feira, 12 de outubro de 2010

biografia XX – órfãos

meu pai ensinou as profundidades
dos rios suas altas
margens

minha mãe o nome da
solidão seu cheiro
entranhado no corpo

a lonjura das estradas
poeirentas um mundo
de ausências

as âncoras e os modos
de se entrelaçarem as
mãos ainda

procuro



Poema: Adair Carvalhais Júnior
Foto: Lúcia Araújo

quinta-feira, 24 de junho de 2010

biografia V - comum

o mundo no poema se sonha completo

Ferreira Gullar



cercam me esquinas
esquivas corpos
abatidos dobrando se sobre si
mesmos penumbra cerrada nas
janelas passos curtos sobre as
calçadas

raros horizontes arruínam se nos
olhos sitiados poemas dissipam
se silêncios derramam uma
aurora pálida arranca se da vasta
indigência

há muito me
exilei



Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 30 de abril de 2010

biografia XXXIII - maduro

oferecer às mãos dos
meninos todos
fios grisalhos harmonizar

os passos ao
pendor da
terra

acolher o pai que tropeça
atrás e jamais se
esquece as sombras

que exalam os
frutos límpidos das
fontes

cada passo uma
viagem completa um
perene

amanhecer



Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 26 de abril de 2010

biografia XXI – angústia

quando nasci pássaros
atordoados afogavam se no rio
doce a noite
fechava se sobre
todos nenhum

anjo se importou

meus livros desesperam se
na escuridão as 3
árvores que
plantei naufragam
no calor

enlouquecido


pedro e alice já não
dormem em casa em lugar
algum encontro o que
deixei na beira do
rio nem nos meus

cabelos brancos as flores
do limoeiro a
correria das crianças no
quintal da minha

infância

quarta-feira, 3 de março de 2010

biografia XXXII - paradeiro

meus semelhantes sucumbem
nas tardes suas
tristezas
cotidianas amontoam se

ao meu lado nas
mãos a pele manchada o
frio dos dias

irremediáveis

nos olhos o gosto
das noites mal
dormidas seus
vastas desertos despencam

sobre mim vergam
minhas
pernas

exaustas


a vida se desfazendo


Adair Carvalhais Júnior