sexta-feira, 30 de abril de 2010

biografia XXXIII - maduro

oferecer às mãos dos
meninos todos
fios grisalhos harmonizar

os passos ao
pendor da
terra

acolher o pai que tropeça
atrás e jamais se
esquece as sombras

que exalam os
frutos límpidos das
fontes

cada passo uma
viagem completa um
perene

amanhecer



Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 26 de abril de 2010

biografia XXI – angústia

quando nasci pássaros
atordoados afogavam se no rio
doce a noite
fechava se sobre
todos nenhum

anjo se importou

meus livros desesperam se
na escuridão as 3
árvores que
plantei naufragam
no calor

enlouquecido


pedro e alice já não
dormem em casa em lugar
algum encontro o que
deixei na beira do
rio nem nos meus

cabelos brancos as flores
do limoeiro a
correria das crianças no
quintal da minha

infância

quarta-feira, 3 de março de 2010

biografia XXXII - paradeiro

meus semelhantes sucumbem
nas tardes suas
tristezas
cotidianas amontoam se

ao meu lado nas
mãos a pele manchada o
frio dos dias

irremediáveis

nos olhos o gosto
das noites mal
dormidas seus
vastas desertos despencam

sobre mim vergam
minhas
pernas

exaustas


a vida se desfazendo


Adair Carvalhais Júnior

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

biografia XXXIX - velho

entranhar os pés na
terra irradiar
raízes saber se

árvore fundo
e lentamente

feito rochas
sábias permitir se
alicerces erguer

brandas
passagens

como águas
remotas brotar nas
rugas do solo insinuar se

orvalho nas casas nas
sombras nos

descampados


Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

biografia XXVIII- filhos




aos meus pés alice
devora os
dias amontoados em
livros

seu sorriso me faz
persistir
               
                     
de longe os pequenos
olhos de pedro espreitam
os
dias
               
seu abraço me
refaz o mundo
                     

a vida emana e se

                     
enraiza
                





Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

biografia XXXVIII - lar

o mar se movimenta
todo dentro
de mim toma meu
corpo alaga se nos
meus
vãos

acorda as velhas
amoreiras os cabelos
brancos de meus
avós as vozes
dos meninos nos
quintais

o rio dorme inteiro
nas minhas
planícies escorrega entre
meus dedos inunda

calmamente minhas
solidões

encontra o cheiro
morno das manhãs
de sol as pedras
esquecidas o
barro nos pés
descalços

mas não deságua

no mar


Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

biografia XXXI - esperança

já morreram as duas
árvores que
plantei perderam se

no mundo os pequenos
poemas que
escrevi esvaziaram

se de mistérios as noites
de desamparo

o corpo magoa se com
o tempo nenhuma
chuva incomoda mais dói

olhar

prá frente



Adair Carvalhais Júnior

domingo, 17 de janeiro de 2010

biografia XXXIV - minas

caminhava entre
pedras recobria me de
montanhas branqueavam

meus cabelos enrugava
me a face profundos
vales

ansiava sertões dentro
de mim vertiam
cachoeiras inflamavam

meus olhos cresciam
vastas
angústias

a terra obra dentro
de
mim


Adair Carvalhais Júnior

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

biografia XXXV - poesia

refazer toda a
humanidade em cada
verso inspirar infinitos
silêncios cada

sulco do mundo cobrir
de linguagem em
tudo tomar
parte

inaugurar a
terra dia
a dia respirar o
inatingível

a palavra
obra em
mim



Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

biografia IV - impassível

um cheiro vermelho
nos pés e goiabas
apodrecendo no
quintal ainda

doce

o rio
atravessando a
janela e muitas
crianças

na rua

a poeira da
estrada nos
olhos de meu
pai minha

pequena solidão

o calor das paredes
remotas desarranjando
meus cabelos
brancos minha

frívola vaidade

a cidade enorme onde
procuro as
castanheiras
debruçadas nos

muros

longínquos





Adair Carvalhais Júnior

domingo, 20 de dezembro de 2009

biografia XXXVII- infância

imersa nos
dias distante feito
oceano arraigada na

areia submersa
nela
mesma

alheia

transbordando dos olhos

forasteira


Adair Carvalhais Júnior

biografia XXXVI- bh

a cidade crescia rápida
demais ao meu
redor onde agora minha
casa meu

cobertor

a cidade subia e
descia toda
hora uma ladeira onde
se escondia o

rio da

minha infância

e perseguia meu corpo
interiorano seus seios
adolescentes seus
quadris suas

praças sempre
vazias onde

murmurava a

poesia




Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

biografia III - rua

biografia III - rua



pique esconde

futebol

mãe da rua



carrinho de rolimã

bicicleta

primeiros beijos


a vida toda fora
de casa


Adair Carvalhais Júnior

sábado, 5 de dezembro de 2009

biografia II - família

o velho fusca arrastou estrada
a fora minha
mãe meus
irmãos no

caminhão panelas
mamadeiras o
cachorro nosso
mundo inteiro

a casa confundiu se na
poeira

nunca mais senti o cheiro
branco do
limoeiro do
quintal

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

biografia XIV: península

mar era novidade sempre
refeita corpos
quentes largados na
areia

planície de cor
indefinível memória
crua dos
vales

completa ausência silêncio
indevassável esperança das
serras
embrutecidas nossa

única companhia



Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

biografia XV - 43

ainda a mesma
janela o mesmo rio que não
leva pro mar o limoeiro

morto as vastidões sem
sentido os vales ainda
espalhando se

a mesma estrada
esburacada a mãe sozinha o pai sempre
longe os mesmos

sonhos infantis o lote
vago ainda o mesmo
vazio




Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

biografia XVI - meninos

entre a casa e o
grupo escolar ruas
praças avenidas e
árvores tudo muito
enorme

mas vazio e quase
silencioso

desses silêncios que
carregamos para
sempre


Adair Carvalhais Júnior

biografia X – parede

no vale outrora frio e
estrelado em meio às montanhas
dilapidadas distraio meu
corpo minhas mãos
cansadas

da água do
rio do sol sempre
quente guardo só
saudade sempre
inútil

valadares não é sequer um retrato


Adair Carvalhais Júnior

biografia VII – estrangeiro

da beira
rio ao rés das
montanhas do calor
ardente aos ventos
do vale frio meu corpo de
menino pronto se
acostumou

minhas retinas úmidas
jamais



Adair Carvalhais Júnior

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

biografia VI - pai e mãe

meu pai viajava tão
de manhã que os dias jamais
terminavam longos cheios
de uma enorme solidão onde minha
mãe
se perdeu

ainda hoje não
aprendi como sentir nos
fins de semana a
felicidade
voltar



Adair Carvalhais Júnior