quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

biografia IV - impassível

um cheiro vermelho
nos pés e goiabas
apodrecendo no
quintal ainda

doce

o rio
atravessando a
janela e muitas
crianças

na rua

a poeira da
estrada nos
olhos de meu
pai minha

pequena solidão

o calor das paredes
remotas desarranjando
meus cabelos
brancos minha

frívola vaidade

a cidade enorme onde
procuro as
castanheiras
debruçadas nos

muros

longínquos





Adair Carvalhais Júnior

domingo, 20 de dezembro de 2009

biografia XXXVII- infância

imersa nos
dias distante feito
oceano arraigada na

areia submersa
nela
mesma

alheia

transbordando dos olhos

forasteira


Adair Carvalhais Júnior

biografia XXXVI- bh

a cidade crescia rápida
demais ao meu
redor onde agora minha
casa meu

cobertor

a cidade subia e
descia toda
hora uma ladeira onde
se escondia o

rio da

minha infância

e perseguia meu corpo
interiorano seus seios
adolescentes seus
quadris suas

praças sempre
vazias onde

murmurava a

poesia




Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

biografia III - rua

biografia III - rua



pique esconde

futebol

mãe da rua



carrinho de rolimã

bicicleta

primeiros beijos


a vida toda fora
de casa


Adair Carvalhais Júnior

sábado, 5 de dezembro de 2009

biografia II - família

o velho fusca arrastou estrada
a fora minha
mãe meus
irmãos no

caminhão panelas
mamadeiras o
cachorro nosso
mundo inteiro

a casa confundiu se na
poeira

nunca mais senti o cheiro
branco do
limoeiro do
quintal

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

biografia XIV: península

mar era novidade sempre
refeita corpos
quentes largados na
areia

planície de cor
indefinível memória
crua dos
vales

completa ausência silêncio
indevassável esperança das
serras
embrutecidas nossa

única companhia



Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

biografia XV - 43

ainda a mesma
janela o mesmo rio que não
leva pro mar o limoeiro

morto as vastidões sem
sentido os vales ainda
espalhando se

a mesma estrada
esburacada a mãe sozinha o pai sempre
longe os mesmos

sonhos infantis o lote
vago ainda o mesmo
vazio




Adair Carvalhais Júnior

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

biografia XVI - meninos

entre a casa e o
grupo escolar ruas
praças avenidas e
árvores tudo muito
enorme

mas vazio e quase
silencioso

desses silêncios que
carregamos para
sempre


Adair Carvalhais Júnior

biografia X – parede

no vale outrora frio e
estrelado em meio às montanhas
dilapidadas distraio meu
corpo minhas mãos
cansadas

da água do
rio do sol sempre
quente guardo só
saudade sempre
inútil

valadares não é sequer um retrato


Adair Carvalhais Júnior

biografia VII – estrangeiro

da beira
rio ao rés das
montanhas do calor
ardente aos ventos
do vale frio meu corpo de
menino pronto se
acostumou

minhas retinas úmidas
jamais



Adair Carvalhais Júnior

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

biografia VI - pai e mãe

meu pai viajava tão
de manhã que os dias jamais
terminavam longos cheios
de uma enorme solidão onde minha
mãe
se perdeu

ainda hoje não
aprendi como sentir nos
fins de semana a
felicidade
voltar



Adair Carvalhais Júnior

terça-feira, 17 de novembro de 2009

biografia I - rio

sou da beira
rio das águas que mais de uma
vez solaparam as
margens da
noite

sou do rio e me
repito todos
os dias na demanda

do mar



Adair Carvalhais Júnior